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Domingo, 9 de Janeiro de 2011

Bom dia! – Salve!

erá que não se pode já dizer bom dia! quando se chega a qualquer lado?

Olham-nos com cara de poucos amigos e parecem dizer – de onde conheço esta?

Bom dia quer dizer saudação, salve - salvação, implica o desejo de um dia feliz ao conhecido, como ao desconhecido.

Pena que se desconheça hoje este significado, esta tolerância para qualquer um que encontremos, seja qual for o seu passado e o modo como vive o presente.

Outros dias estão chegando, outros modos de viver.

Não valerá a pena esforçar ninguém, outros modos as gentes acharão para se cumprimentarem sem bulício, nem obrigação.

Apenas com o sentido da graça do encontro e deseja-se que sejam sempre bons encontros.

- Eu digo sempre bom dia! Se quiserem ouvir que ouçam, se quiserem tapar os ouvidos que tapem. Eu, por mim, saúdo sempre que entro em recinto onde já estejam outras pessoas. A cada um os hábitos que achar por bem ter e se não chocam com o espaço de ninguém.

- Afinal, um  bom dia! para ti também.

 


publicado por eva às 00:35

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Domingo, 30 de Novembro de 2008

Nikos Kazantzaki # Como conheci Alexis Zorba

Foram as viagens e os sonhos os maiores benfeitores que tive no decorrer da minha vida; quanto aos homens, muito poucos, vivos ou mortos, me ajudaram na minha luta. Se eu quisesse, no entanto, distinguir os homens que mais profundamente deixaram a sua marca na minha alma, nomearia talvez Homero, Buda, Nietzsche, Bergson e Zorba. O primeiro foi para mim o olhar pacífico e resplandecente, como o disco do sol que ilumina o universo com o seu brilho redentor; Buda, o olhar tenebroso e inacessível onde o mundo se afoga e se salva; Bergson libertou-me de certas questões filosóficas que permaneciam sem resposta e que me atormentaram nos primeiros anos de juventude; Nietzsche enriqueceu-me com novas angústias e ensinou-me a amar a vida e a não temer a morte.
Mas se eu tivesse que escolher um guia espiritual, um guru, como dizem os Hindus, um Velho como dizem os monges do monte Athos, seria certamente Zorba quem eu escolheria.
Porque era ele quem possuía isso que um escrevinhador precisa para ser salvo: o olhar primitivo que se apodera da sua presa como uma flecha vinda do alto; a ingenuidade criadora que todas as manhãs nos faz ver o universo como se fosse a primeira vez e dá uma virgindade aos elementos quotidianos e eternos – o vento, o mar, o fogo, a mulher, o pão; uma mão segura, um coração fresco, a coragem de se divertir com a própria alma e finalmente o riso sonoro e selvagem, vindo duma fonte profunda, mais profunda ainda que as entranhas do homem, que brotava, redentor, nos momentos críticos, do velho peito de Zorba: e quando brotava, podia abater, e abatia de facto, todas as barreiras – moral, religião, pátria – que o homem, medroso e miserável, ergueu à sua volta para caminhar coxeando, mas em segurança, ao longo da sua pobre vida.
Quando penso nesse alimento que durante tantos anos os livros e os mestres tinham oferecido a uma alma esfomeada, e nos miolos de leão que Zorba me ofereceu em alguns meses, dificilmente contenho a minha amargura e o meu furor. Não posso lembrar-me, sem que sinta o coração exaltar-se, com os propósitos que ele sustentava, as danças que ele dançava para mim, o santuri que tocava para mim, numa praia de Creta onde nós vivemos, seis meses, com uma multidão de trabalhadores, escavando a terra na esperança de encontrar um pouco de lenhite. Mas ambos sabíamos que esse objectivo material não passava dum pretexto para nos esconder aos olhos do mundo; o que nós queríamos era que o sol se pusesse depressa, que os operários largassem o trabalho, para irmos os dois instalar-nos na praia, comer o bom pão da aldeia, beber o nosso vinho seco de Creta e entabular conversa.
Eu raramente falava: que é que um intelectual pode dizer a um «papão»? E punha-me a ouvi-lo falar da sua aldeia situada no monte Olimpo, da neve, dos lobos, dos comitadjis, de Santa Sofia, da lenhite, de mulheres, de Deus, da pátria e da morte – e subitamente, quando se sentia oprimido e as palavras eram insuficientes para ele, erguia-se num salto sobre os seixos da praia e punha-se a dançar. Sólido, muito direito, ossudo, com a cabeça esticada para trás, os olhinhos redondos de pássaro, dançava, berrava, sulcava a praia com os pés enormes e borrifava a cara com água do mar.
Se eu tivesse escutado a sua voz, ou melhor, o seu grito, a minha vida teria adquirido um valor; viveria com o meu sangue, a minha carne e os meus ossos, aquilo que agora sonho como um fumador de haxixe e passo depois para o papel. Mas não me aventurei. Via Zorba dançar noite e dia, relinchando, a gritar-me para que eu saísse para fora da carapaça confortável da prudência e dos hábitos e partisse com ele para as grandes viagens sem regresso, mas ficava imóvel, transido.
Acontece-me frequentemente ter vergonha quando surpreendo a minha alma abstendo-se de levar a cabo o que o delírio supremo – a própria substância da vida – me impunha que fizesse; mas nunca tive tanta vergonha da minha alma como quando estava perante Zorba.
A exploração da lenhite foi um desastre completo. Zorba e eu tínhamos feito tudo o que podiam os, a força de gargalhadas, brincadeiras e discussões, para a levar à catástrofe. Não escavávamos para encontrar lenhite; isso era um pretexto para os homens sensatos e simples; era «para que eles não nos atirassem com tomates à cara», dizia Zorba, rlndo-se à gargalhada. - Porque a gente, patrão (chamava-me patrão e rebentava de riso), a gente, patrão, tem outros objectivos, objectivos mais elevados.
- Mas que objectivos, Zorba? – perguntava eu.
- Escavamos para ver se descobrimos os demónios que existem dentro de nós.
Não tardámos a esbanjar tudo o que me tinha dado o meu infeliz tio para montar escritório; despedimos os operários, assámos um borrego, enchemos um barril de vinho, instalámo-nos na praia junto da qual se encontrava a mina e pusemo-nos a comer e a beber. Zorba pegou no santuri, afinou a garganta velha e rouca e cantou um amané. Comíamos, bebíamos, e não me lembro de alguma vez me sentir tão bem disposto: a exploração da mina morreu, gritávamos, que Deus tenha a sua alma em descanso e nos dê longa vida. Para o inferno a lenhite!
Na manhã seguinte separámo-nos; eu voltei novamente para o meu mundo da escrita, levando comigo a ferida incurável feita por essa flecha cruel a que, à falta de nome melhor, nós chamamos espírito. Ele dirigiu-se para o norte, para ir ter à Sérvia, a uma montanha perto de Skopia, onde parece que descobriu uma rica veia de leucolite, levou à certa alguns ricaços, comprou ferramentas, contratou operários e pôs-se a abrir galerias na terra. Dinamitou os rochedos, fez estradas, canalizou a água, construiu uma casa, e, como era um velho ainda rijo, casou com uma linda viúva alegre, Liuba, de quem teve um filho.  
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in "Carta a Greco"
de Nikos Kazantzaki

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Disse  Nikos Kazantzaki:  O que não existe é aquilo que ainda não desejámos bastante !
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publicado por eva às 12:04

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Domingo, 23 de Novembro de 2008

Nikos Kazantzaki # Carta a Greco

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Três espécies de almas, três orações:
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........a) Sou um arco nas tuas mãos, Senhor; curva-me, senão apodrecerei.


........b) Não me curves demasiado, Senhor; posso quebrar.


........c) Curva-me até onde desejares, Senhor; e tanto pior se eu quebrar.




 

.....Ergui os olhos, fitei-te. Ia dizer-te:
.....- Avô, é verdade que não há salvação? – Mas a língua prendeu-se-me. E quando tentei aproximar-me de ti, os joelhos fraquejaram.
.....Então, estendeste a mão, como se eu me afogasse e quisesses salvar-me. Agarrei-a àvidamente: ela estava salpicada de manchas multicolores; queimava. Toquei-lhe, ela deu-me força, um impulso, e pude falar.
.....- Avô – disse –, dá-me as tuas ordens.
.....Tu sorriste, puseste a mão sobre a minha cabeça. Não era mão, era um fogo multicolor. E esse fogo derramou-se até às raízes do meu espírito.
.....- Vai até onde puderes, meu filho...
.....A tua voz era grave, sombria, como se saísse da garganta profunda da terra.
.....Atingira as raízes do meu cérebro, mas o meu coração não acusou qualquer sobressalto.
.....- Avô – gritei então com voz mais forte – dá-me uma ordem mais difícil, mais cretense.
.....E, bruscamente, mal o tinha dito, uma chama cortou o ar. Assobiando, o antepassado indomável com cabeleira entrelaçada de raízes de tomilho desapareceu da minha vista: no alto do Sinai apenas restava uma voz imperiosa, que fazia estremecer o ar.
.....- Vai até onde não puderes.
……………………………………...............................
Lembras-te daquelas palavras terríveis que nós, os cretenses, costumamos dizer: - «Volta aonde fracassaste; foge do lugar onde venceste!» Se fracassei e me sobrar ainda uma hora de vida, recomeçarei; se venci, abrirei a terra para vir deitar-me ao pé de ti.
.....Aqui tens, pois, o meu relato, general, e julga.
.....Escuta, Avô, o relato da minha vida; e se na verdade combati contigo, se fui ferido sem que ninguém se apercebesse que sofria, se nunca voltei as costas ao inimigo – dá-me a tua bênção.
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in "Carta a Greco"
de Nikos Kazantzaki

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Disse  Nikos Kazantzaki:  Toda a minha vida é um grito e toda a minha obra a interpretação desse grito !
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publicado por eva às 00:28

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Domingo, 31 de Dezembro de 2006

Nikos Kazantzaki # Carta a Greco

31 de dezembro de 2006

Ergui os olhos, fitei-te. Ia dizer-te:
- Avô, é verdade que não há salvação? - Mas a língua prendeu-se-me. E quando tentei aproximar-me de ti, os joelhos fraquejaram.
Então, estendeste a mão, como se eu me afogasse e quisesses salvar-me. Agarrei-a àvidamente: ela estava salpicada de manchas multicolores; queimava. Toquei-lhe, ela deu-me força, um impulso, e pude falar.
- Avô - disse -, dá-me as tuas ordens.
Tu sorriste, puseste a mão sobre a minha cabeça. Não era mão, era um fogo multicolor. E esse fogo derramou-se até às raízes do meu espírito.
- Vai até onde puderes, meu filho...
A tua voz era grave, sombria, como se saísse da garganta profunda da terra.
Atingira as raízes do meu cérebro, mas o meu coração não acusou qualquer sobressalto.
- Avô - gritei então com voz mais forte - dá-me uma ordem mais difícil, mais cretense.
E, bruscamente, mal o tinha dito, uma chama cortou o ar. Assobiando, o antepassado indomável com cabeleira entrelaçada de raízes de tomilho desapareceu da minha vista: no alto do Sinai apenas restava uma voz imperiosa, que fazia estremecer o ar.
- Vai até onde não puderes.
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in "Carta a Greco"
de Nikos Kazantzaki

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publicado por eva às 20:34

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Domingo, 3 de Dezembro de 2006

Allan Kardec # A caridade

3 de dezembro de 2006

Algumas pessoas são de opinião que, a partir do momento em que se está na Terra para expiar, é preciso que as provas sigam o seu curso. Existem até aquelas que chegam a crer que não só não se deve fazer nada para atenuá-las como, pelo contrário, se deve torná-las mais vivas contribuindo, assim para que sejam mais proveitosas. É um grande erro.
... Sabeis se a Providência não vos escolheu ... como bálsamo consolador? ... Portanto, deveis sim afirmar: "Vejamos que meios nosso Pai misericordioso colocou ao meu alcance para aliviar o sofrimento do meu irmão. ... Vejamos, mesmo, se Deus não colocou nas minhas mãos a forma de cessar esse sofrimento; se não me foi dado a mim, também como prova ou talvez como expiação, acabar com o mal e, em seu lugar, colocar a paz".
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
Porque tudo o que se faz contra o próximo é contra Deus que se faz. Não se podendo amar a Deus sem praticar a caridade com o próximo, todos os deveres do homem se acham resumidos nestas palavras: Fora da caridade não há salvação.
.
in "O Evangelho segundo o Espiritismo"
de Allan Kardec
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publicado por eva às 23:36

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