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Domingo, 25 de Maio de 2008

Maria João Brito de Sousa # (In)Definições; Amar é; A Mulher Interrompida

.
(IN)DEFINIÇÕES

Eu quase não entendo o que em mim cresce...
Aceito o que vier, só de o sentir,
E prefiro aceitar do que pedir.
Sou semente do Deus que em mim floresce...
.
De humana e pequenina que sei ser
Ascendo à condição de ser Palavra
Por obra dessa Força que em mim lavra
Do Verbo original essoutro CRER
.
Que vai tão mais além do que o que sou!
Pequena, tão pequena que nem sei
Como alcançar os longes que me apontam!
.
E deixo-me embalar... eu venho e vou
Entre o que já vos disse e o que direi
Nos versos que encontrei... ou que me encontram?


Amar é…

Amar é estar em paz, acreditar...
É ser gato e mulher e planta em flor!
Mais do que ter amor é Ser amor
E nesse amor fluir, frutificar...
.
É ter dentro de nós a terra, o mar,
É pintar um poema em cada cor,
É poder consolar quem sinta dor,
Semear um sorriso em quem chorar...
.
É saber aceitar a vida, a morte
Sem o medo ou a sombra da revolta...
E, equilibrando os pratos do destino,
.
É vislumbrar, lá longe, a nossa sorte...
Agarrar o fiozinho, a ponta solta
Daquilo que há em nós e que é divino!


A MULHER INTERROMPIDA

Não foi assim tão antigamente...
Foi há cerca de um tempo
Mais duas metades de dois tempos meios.
Uma voz amiga, certamente,
Embora longínqua, perguntou por mim
E eu, tão confusa, não me conhecia...
Sou mulher de um homem,
Respondia.
E a voz insistia:
- Mulher, quem és tu?
- Sou a mãe de um filho que não mora cá
E de três meninas que me querem muito,
Apesar da culpa, apesar de tudo...
E a voz repetia:
- Mulher, quem és tu?
.
Eu iria jurar que não mentia
quando respondia:
- Eu sou essa mãe, apesar do luto!
A voz não cedia quando perguntava
Do Espaço, do Tempo e outras coordenadas:
- Ó mãe dos teus filhos, diz-me quem és tu!
Onde moram as tuas horas carnais?
Onde guardas o corpo quando sais
E voas em busca do filho perdido?
Que fazem essas tuas mãos?
Que estrelas tão negras trazes no olhar?
Que morte tão estranha te veio buscar
E esqueceu teu corpo entre os teus irmãos?
.
E eu respondia
Sem me aperceber
Que me descrevia sem me conhecer:
- Sou a mulher do meu homem
E a mãe das minhas crias!
Procuro o que se perdeu, o que morreu mal nasceu
E não alcanço encontrar...
.
Mas a voz não se calava no seu calmo perguntar:
- Mulher, que é feito de ti?
Só a ti tens de encontrar!
.
Então procurei-me em mim
E vi que não estava lá...
Procurei-me em todo o mundo,
Do abismo mais profundo à montanha mais escarpada,
Fui ao Nilo, fui ao Ganges,
Procurei-me em cada ventre
Das grutas mais ignoradas...
.
Devo ter percorrido o universo inteiro
Quando, de repente,
Encontrei um corpo que me não era alheio
E uma alma ardente
Onde cabia, exactamente,
A chama tão acesa do meu peito!
E juro
Que foi a primeira vez,
Em toda a minha vida,
Que aceitei a minha imagem denegrida
E me orgulhei da estranha condição
De SER UMA MULHER INTERROMPIDA!

.
.

Disse  Florbela Espanca:  Ser poeta é ter fome, é ter sede de Infinito!
.
.

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.


publicado por eva às 12:26

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Sábado, 8 de Julho de 2006

As duas metades

8 de julho de 2006

Homens e mulheres sempre em disputa que parece eterna.
Ora são os homens que se julgam superiores, ora são as mulheres.
Os cientistas parecem ir ao sabor das modas nos seus apontamentos e conclusões. Tudo provado e comprovado científicamente.
Mas quando temos filhos e filhas, tudo muda.
Os contextos, as ideias e até as conclusões passam imediatamente ao estatuto de igualdade.
Afinal é uma questão de genes masculinos e femininos ou de hereditariedade familiar. Que dizer então dessas diferenças que se transformam em semelhanças?
Isto para não falar nas ligações de simpatia entre pais e filhas ou entre mães e filhos.
Que dizem os cientistas se lhes faltarem as teorias freudianas. Não sobra muito.
Mais razoavel, talvez até mais linear (no sentido de correcção), será considerar um todo que se completa em igualdade circunstancial.
Homens e mulheres iguais em direito à felicidade juntos e um do outro.
Iguais no direito ao amor, à paz, à perfeição.
Iguais nas suas metades da unidade de um ser completo.
tags: ,

publicado por eva às 18:51

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Sexta-feira, 21 de Abril de 2006

Querida avó, sempre bonita. Sempre doente. Sempre amorosa.

21 de abril de 2006

Querida avó, sempre bonita. Sempre doente. Sempre amorosa.
Sempre dependente. Sempre com um sorriso.
Pele muito branca, cabelos branco areia, olhos d'água.
Muito frágil, protegida por milhares de conceitos.
Uma vida imensa.

Uma vida cheia de emoções.
Um coração cor de coral, muito vivo, sempre a palpitar de preocupação - até pelas coisas boas.
Mas por dentro o seu corpo está a deixar-se ir.

Todo o seu interior está a murchar.
Só o seu coração vive luminoso.
E de repente, do seu interior, vem ela mesma, cheia de luz rosa. Enorme.
De pé, a sair e querendo banhar-se numa luz maior.

Flores de todas as cores rodeiam-na.
E cresce. Cresce até ao céu.
E eu estou banhada... em lágrimas.

publicado por eva às 14:46

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Segunda-feira, 27 de Março de 2006

Ah, as rosas! brancas, amarelas, rosas rosa, chá, roxas...

27 de março de 2006

Ah, as rosas! brancas, amarelas, rosas rosa, chá, roxas... flores lindas.
Em botão ou abertas a desfolhar. Sempre lindas, espalhadas pelo chão e pelo ar a voar.
Numa mesa alta está a escultura duma cabeça, cabelos no rosto e no pescoço. Vai tornando-se branca e dourada.
E desfaz-se no pó - a cabeça e a mesa.
Fica uma rosa cintilante e dourada. Enorme e mesmo assim faz-se cada vez maior.
E transforma-se numa mulher.
As lágrimas correm em fio pela face. Será que Deus conta mesmo as lágrimas das mulheres?
Das lágrimas nasceu uma luz. Ai, que luz!

publicado por eva às 19:05

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