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Escritos de Eva

Eva diz o que sonha (e não só) sem alinhamento a políticas ou crenças conformes às instituições que conhecemos. Momentos de leveza, felicidade ou inspiração para melhorar cada dia com bons pensamentos. Um texto, uma imagem... para todas as idades

Eva diz o que sonha (e não só) sem alinhamento a políticas ou crenças conformes às instituições que conhecemos. Momentos de leveza, felicidade ou inspiração para melhorar cada dia com bons pensamentos. Um texto, uma imagem... para todas as idades

Escritos de Eva

06
Mai07

Clara Pinto Correia # Quem Tem Medo Compra Um Cão

eva
6 de maio de 2007

O Zé naquela altura andava sempre a dizer que as coisas nunca são exactamente como as pessoas sabem muito bem que elas são. Era uma frase um bocado esquisita que ele tinha descoberto num livro que estava dentro da arca das viagens do Pai Zé, por baixo de um monte de mapas do mundo muito antigos e cheios de buracos no meio dos mares e continentes. Era por causa dos índios que vivem nas florestas do equador, junto de uma cascata enorme que vem lá de cima de uns penhascos monstruosos e cai mesmo ao lado da aldeia com imenso barulho.
Faz parte da tradição desses povos comer os amendoins selvagens de casca encarnada que são arrastados pelas corrente e se abrem sozinhos quando batem nas rochas. Eles acreditam que estão a engolir a energia do deus rebelde das ondas, que há milhões de anos que anda ali a rugir aos turbilhões, porque ficam cheios de vigor e de força e nunca têm doenças. Quando os exploradores brancos lá chegaram perceberam logo que não era nada disso, e que os amendoins só tinham aqueles poderes mágicos porque ao caírem no rio que forma a cascata ficavam muito enriquecidos em grandes quantidades de proteínas, vitaminas e sais minerais que abundam nos terrenos por onde a água corre e se diluem nela. Os índios ouviram esta explicação científica sem se impressionarem nada, e no fim começaram a rir-se e disseram:
«Está bem, homem branco. Fala para aí até caíres de morto. O que tu não percebes é que as coisas nunca são exactamente como as pessoas sabem muito bem que elas são».
.

In “Irmãos Castanheira em Quem Tem Medo Compra Um Cão”
De Clara Pinto Correia
.

23
Jul06

Maria Aliete Galhoz # Mulher Com Menino Nos Braços

eva
23 de julho de 2006

...Aconteceu assim e nem sequer é um conto.
... ... O apontamento que tenho é desse dia, reli-o, senti-o vivo e dá-me vontade de contá-lo assim mesmo, porque hoje eu já não escrevo bem daquela maneira, mas não importa, aqui a literatura é o menos, o mais é que se passa por vezes tanto tempo sem um gesto de fraternidade que somos desertos secos onde não cai chuva, e nós precisamos de irmãos como o nosso corpo de pão ou então a vida é morta em nossa vidas.
... ... Sob a protecção precária das telhas sublinhadas e de um jasmim do cabo todo aberto em flores amarelas, a presença da mulher com três crianças. Um bebé embrulhado em trapos limpos, que tinha nos braços. Dois meninos pequenos sentados a seu lado e que comiam pão a grandes dentadas sôfregas que quase pareciam felizes. Vieram ao meu encontro os olhos dos meninos com sua curiosidade respondendo à minha sem mal nem medo. Depois foi a mulher fitando-me de outro mundo, com aquela força de inocência pisada e que se fica como um pasmo admirado em certas vidas.
... ... Fitei-lhe os olhos que me fitaram também, azuis, de um puríssimo azul, com sua névoa luminosa de quem aprendeu lágrimas caladas. Sorriu-me e não sei que lhe fez sentir a urgência necessária de ser generosa comigo. A resposta angustiada dos meus olhos escondeu-se no gesto de me curvar para lhe acarinhar os filhos. «Quer comprar alguma coisa?» Apenas as bugigangas misturadas do comércio de quem não sabe ainda, de quem não é capaz de mendigar.
... ... Abri a minha mão no canto onde as moedas faziam um pequeno troco magro. Ela não protestou nem agradeceu, deixou-me escolher, desajeitada, a minha compra irrisória. Corei. Os seus olhos fitaram-me de novo com seu azul magnífico, avaliaram-me toda, um sorriso abriu-lhe uma vivacidade no rosto. Remexeu num saco que tinha ao lado, tirou qualquer coisa lá de dentro, limpou na manga do casaco, pôs-me na mão, «isto sou eu que ofereço à senhora». Um espelhinho redondo com sua orla de plástico vermelho, ingènuamente feio. Fechei a mão sobre ele.
... ... Lembro este nada que se passou com a consciência de uma cobardia pesando sobre mim e ao memso tempo com a comoção humilde de quem viveu um milagre.
...Aliás já mo disseram com a brusquidão dos amigos certos «você é traidora». Perguntei porquê, todos nós queremos uma estimativa de maior valia, é humano também. A resposta foi só «porque sabe». Calei-me, já nada tinha a argumentar, a verdade às vezes obriga-nos ao respeito de que ao menos se sofra calado.
...Quem és tu para me chamares de irmã?

in "Não Choreis Meus Olhos"
de Maria Aliete Galhoz
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