Eva diz o que sonha (e não só) sem alinhamento a políticas ou crenças conformes às instituições que conhecemos. Momentos de leveza, felicidade ou inspiração para melhorar cada dia com bons pensamentos. Um texto, uma imagem... para todas as idades

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Sexta-feira, 1 de Janeiro de 2010

Um Feliz 2010

 

Retornar a casa! Sonhos, carinhos, recordações de criança e juventude…
Primeira metade de uma vida que irá sempre influenciar a vida restante, a nível de intimidade de sentimentos e de sentires pelo que vem, para ser vivido a cada dia.
Abraços e despedidas, um último olhar para trás, já na estrada…
Alguém me disse um dia algo assim: mesmo a dormir, quando se aproximava da terra natal o coração começava a bater mais depressa e acabava por acordar.
Felizes os que têm tão boa lembrança da infância e tão boas referências de refúgio.
Outros, pelo contrário, têm que construí-lo e é aí, na casa de família que formaram, que está o seu próprio refúgio.
Porque é disso mesmo que se trata – ter um refúgio, um posto de segurança para partilhar tristezas e alegrias.
E todos precisamos sentir, também, um refúgio terreno.
 
Desejamos a todos que o novo ano de 2010 possa trazer um bom refúgio de amor e paz!

 

 


publicado por eva às 07:58

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Domingo, 2 de Março de 2008

Vitorino Nemésio # O Bicho Harmonioso (dois poemas)

.
Em Março, os textos de Domingo serão dedicados a Vitorino Nemésio.
.
Vitorino Nemésio Mendes Pinheiro da Silva nasceu a 19 de Dezembro de 1901 na Praia da Vitória, ilha Terceira, e faleceu em Lisboa a 20 de Fevereiro de 1978.
Aluno pouco brilhante (ou bastante incompreendido pelos professores), reprovou um ano e concluiu o curso geral dos liceus com a nota de dez valores.
No entanto, o seu primeiro livro de poesia, Canto Matinal, foi publicado em 1916 e o primeiro livro de ficção, Paço do Milhafre, em 1924.
Licencia-se em Filologia Românica em 1931 na Faculdade de Letras de Lisboa, onde fica a leccionar e onde fará o doutoramento em Letras em 1934.David Mourão-Ferreira diz o seguinte de Nemésio: «Não é fácil esboçar o perfil de Mestre Vitorino Nemésio, já pela incessante mobilidade do modelo, já pela extrema variedade e pela invulgar sobreposição dos traços que o caracterizam. … … Mas a dificuldade do retrato não deriva apenas da diversidade, da complexidade e da acumulação de imagens do retratado: deriva também da força íntima de cada uma delas, da exuberância do talento (porque não dizer genialidade?) com que se têm afirmado, em Vitorino Nemésio, o poeta e o professor, o ficcionista e o crítico, o cronista, o biógrafo, o historiador e o filósofo da cultura. … … não vejo, aliás, mais ninguém, que depois nos falasse igualmente do pensamento de Husserl e da teoria dos quanta, da filosofia de Heidegger e do código genético… De súbito, porém, podíamos vê-lo ainda pegar da sua viola para nos tocar um trecho de Albéniz ou uma canção tradicional da Ilha Terceira… Mas enganar-se-á redondamente quem suspeitar – diante de tal profusão de aptidões, de talentos, de apetências e de recursos naturais – que porventura exista, em Vitorino Nemésio, o quer que seja de um diletante. O seu caso, pelo contrário, é o de uma personalidade de tipo fáustico, para quem o mundo do conhecimento não tem limites.»
.
.
.
........................A CONCHA
.
A minha casa é concha. Como os bichos,
Segreguei-a de mim com paciência :
Fachada de marés, a sonho e lixos ;
O horta e os muros – só areia e ausência.
.
Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se as vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.
.
E telhados de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera – oh bronze falso!
Lareira aberta ao vento, as salas frias.
.
A minha casa... Mas é outra a história :
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.
.
.
..O FALECIDO POETA
.
Os mortos tinham perdido
Todos os costumes de vivos,
Perfeitamente defuntos.
Este – não era esquecido ;
Aquele – falava de assuntos
Muito diferentes, do céu...
E um, que era distraído,
Só tinha ao lado, apodrecido,
Um bocado do chapéu ;
…Mas é porque não estava completamente falecido.
.
Era, aliás, o único
Que, pela posição,
Guardava a ideia de recta ;
E, como tinha estudado história,
Havia um buraco púnico
No fundo da sua memória.
Os outros mortos chamavam-lhe – o Falecido Poeta.
.
E na verdade havia
Na sua cabeça descascada
O essencial da Poesia :
Um céu de osso,
Sem uma única estrela ;
Uma lua de cal e um sol de barro grosso ;
E, por cima, uma noite de sete palmos
Debaixo de uma aurora amarela.
Os outros mortos viviam sem dia nem noite – calmos
.
Ora, uma vez que o Semi-Vivo teimou
Em esquecer-se de vez
Ou reassumir de tudo
A claridade – chorou ;
E foi assim que talvez,
Querendo falar, ficou mudo
E, procurando, não achou
Uma lágrima... outrora...
Ao toco do seu dedo
Chegara um filtro de chuva,
Seria no mundo uma hora.
.
Chovia muito. Os outros mortos tinham medo
De resfriar – e chovia.
Por dentro da janela, na vida, estava a viúva
Do Defunto Poeta.
E chovia.
Cada defunto abriu o seu guarda-sol, como uma seta…
E lá ficaram todos, debaixo de chuva e de poesia.
.

in “O Bicho Harmonioso”, Coimbra, 1938
.
..
Disse  Paul Valéry :  Nem sempre sou da minha opinião !
.
.
Há já outro poema de Nemésio anteriormente publicado neste blog
.
.

publicado por eva às 20:16

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Segunda-feira, 26 de Novembro de 2007

Doces

Dia escuro e chuvoso, uma música de jazz que enche a casa.
Casa que sofre arrumações e desarrumações para finalmente se ajeitarem móveis e futilidades (necessaríssimas!).
Tudo arrumado e o espaço que havia… já não há.
Todos os cantos e nichos estão preenchidos.
E se o chão está livre, cobre-se de seguida com um tapete.
Que é da casa espaçosa dos nosso sonhos? Não faço a mínima ideia porque tudo o que temos é preciso.
Às vezes acontece comprar novamente o que se tem porque não sabemos onde está, mas isso…
- Queres um bombom?
- Pois sim. Quem os inventou merecia um prémio, desses bem bons.
- E quem sabe se não inventaria algo melhor a seguir?
- Difícil mas possível.
- Sempre!
- Concordemos. São um encanto da culinária.
- Posso levar mais um? Assim dá para a viagem porque sair daqui para esse temporal que está lá fora, fica muito melhor com ajuda de bombons.
- Lá diz o povo “o que é doce nunca amargou”.
- É mais ou menos isso, é. O sentido está correcto.
- Para a próxima tenho bolo de chocolate.
- Isso, e com amêndoas raladas, por favor…
- Não estamos de dieta?
- Mas lembraste coisas tão boas… 
. .
♪: Tarde em Itapuã - Toquinho
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publicado por eva às 17:11

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Quinta-feira, 19 de Outubro de 2006

Repartições

19 de outubro de 2006

Uma casa na colina ou a casa da colina.
Parece não passar de um sonho de tão complicadas que são as leis administrativas.
As leis são necessárias para ordenar pessoas, direitos e deveres e todas as coisas para que servem efectivamente.
Serão então as pessoas que delas se servem que as complicam na sua aplicação?
Alguma razão haverá para dar esta impressão.
Será questão de dinheiros que sobram ou que faltam ou será falta de vontade para resolver?
Às vezes há sonhos tão simples que se tornam complicados, talvez porque não estão no tempo certo de serem resolvidos ou porque falha a imaginação...
Seja de que modo seja, as leis não estão lá muito pelas necessidades das pessoas.
As repartições, nem pensar. Ainda pior.
Vamos uma e outra vez para resolver o mesmo.
Não que os empregados sejam antipáticos mas geralmente não resolvem e, outras vezes, ainda complicam bastante.
Profissão sem dúvida ingrata.
Não queria falar na quantidade de impressos e papéis, mas não consigo.
É perfeitamente indescritível o número de assinaturas e carimbos que se devem apresentar em duplicado. E ainda mais que isso.
As pessoas já vão desconfiadas para as repartições.
Ao contrário das farmácias onde se espera e paga a bom preço por remédios que se espera sejam para melhorar os sintomas.
Nas repartições espera-se, paga-se e não se sabe bem para quê.
No meio de tanta conversa inútil, ouvi dizer que as leis dos homens são cópia das leis de Deus.
Cruz, credo! Deus nos acuda... e melhores dias virão!

casa, leis
http://fotos.sapo.pt/evacristal/pic/0007c3bc
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publicado por eva às 19:54

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Quarta-feira, 10 de Maio de 2006

No centro da casa, na penumbra da sua figura em contraluz,

10 de maio de 2006

No centro da casa, na penumbra da sua figura em contraluz, esperava.
Esperava, por anos de espera, desencontros, sofrimentos.
Esperava um ajuste de contas, fosse qual fosse. Desde que terminasse o seu desespero.
Raivas, ânsias, remorsos, choros desesperados também.
Mas acima de tudo a vontade de ser feliz.
Acima de tudo a crença em Deus.
Na divindade que todos sentimos a chamar por nós em algum momento da vida.
Que representa a possibilidade de sermos felizes. Por cima de tudo.
Acima de todas as coisas.
Acima do que conhecemos ou não.
Todos sentimos, de algum modo, o direito de ser feliz.
Mesmo que isso implique (e geralmente implica mesmo) uma regeneração completa de, e em nós próprios.
Noutro apartamento uma mulher solitária.
Solitária por dentro. Orgulhosa por fora.
E os filhos, ainda na adolescência, clamavam por paz e amor.
Mas também pela família que eram.
Ela só, ligava todas estas partes.
Fiquem todos na paz divina de Deus.
O passado passou enfim.

publicado por eva às 09:13

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