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Escritos de Eva

Eva diz o que sonha (e não só) sem alinhamento a políticas ou crenças conformes às instituições que conhecemos. Momentos de leveza, felicidade ou inspiração para melhorar cada dia com bons pensamentos. Um texto, uma imagem... para todas as idades

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Escritos de Eva

01
Jun08

Khalil Gibran - Nota biográfica; A Nova Fronteira

eva

 

KHALIL GIBRAN


Khalil Gibran nasceu a 6 de Dezembro de 1883 em Becharre no Líbano, duma antiga família cristã. A mãe era filha dum sacerdote maronita, rito que deriva directamente da Igreja de Antioquia. Becharre estará sempre presente no espírito de Gibran. Erguendo-se num planalto, à beira das falésias de Wadi Quadisha (que significa vale santo ou sagrado), Becharre acolhia-se à sombra da floresta dos cedros sagrados do Líbano. Em 1894, acompanhando a mãe, emigra para Boston mas, em 1897, regressa ao Líbano para prosseguir os estudos na Escola da Sabedoria de Beirute. Em 1901 visita a Grécia, a Itália, a Espanha e depois instala-se em Paris, para estudar pintura. Nessa época escreve Os Espíritos Rebeldes, livro que viria a ser queimado numa praça pública de Beirute, por ordem das autoridades turcas e condenado como herético pelo bispo maronita.*
Em 1903 Gibran é chamado aos Estados Unidos da América para assistir à mãe moribunda. Permanece em Boston, onde se dedica especialmente à pintura. Em 1908 regressa a Paris e trabalha na Academia Julian e na Escola de Belas Artes, convivendo com Rodin, Debussy, Maeterlinck, Edmond Rostand e outras figuras do mundo das artes. Em 1910 instala-se definitivamente em Nova Iorque e consagra o seu tempo à pintura e à poesia. Morre em Nova Iorque, aos 47 anos de idade, a 10 de Abril de 1931. O seu corpo, levado para o Líbano, repousa na cripta do Mosteiro de Mar Sarkis, em Becharre.
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* Para se compreender melhor estas posições das autoridades políticas e religiosas é útil fazer-se uma breve resenha histórica do Líbano. A Turquia foi uma das nações mais poderosas do mundo. Dominava todo o mundo árabe, o norte de África e parte da Europa. O Sultão era o dono do império e concedia ao exército um terço dos despojos de guerra. Esta prática manteve bastante vivo o sistema feudal no Império Turco até porque os impostos eram cobrados por agentes que apresentavam propostas ao Sultão em troca do privilégio da cobrança em locais determinados. Este sistema fez com que o mundo árabe vivesse em permanente rebelião contra o Império Turco. A Síria (que incluía as montanhas do Líbano) foi integrada no Império em 1517. No entanto, as montanhas do Líbano eram quase inacessíveis ao exército turco pelo que os habitantes puderam sempre manter a sua própria cultura ao mesmo tempo que mantinham sempre vivo o espírito de independência. Em 1860 eclodiu mais uma guerra civil. A Inglaterra enviou para o local uma armada e a França um exército de 6.000 homens. Uma comissão composta por representantes da França, Inglaterra, Rússia e Áustria reuniu-se com o primeiro ministro turco tendo então sido criada uma área autónoma que não incluía as planícies de Bekka, nem as cidades costeiras, nem mesmo Beirute. Assim, todas as pessoas que chegavam aos Estados Unidos vindas das costas orientais do Mediterrâneo eram classificadas como naturais da Síria. Mesmo após a Primeira Guerra Mundial (em que a Turquia, apoiante da Alemanha, foi expulsa e a França recebeu um mandato da Liga das Nações sobre a Síria e o Líbano), as pessoas que chegavam aos Estados Unidos eram classificadas como naturais da Síria. O domínio francês manteve-se até 1941, ano em que foi reconhecida a independência do Líbano. Por tudo isto, fácil se torna compreender a existência de dois Gibran. Um: o místico, o poeta, o pregador da paz; o outro: o herético, o panfletário, o revolucionário. O homem que, sendo libanês, era também sírio.O homem que escrevia em inglês e árabe mas não vertia os seus textos de uma língua na outra. O homem cujos textos são tantas vezes citados sem indicação de origem e tantas vezes traduzidos e editados sem indicação precisa do ano de produção até porque alguns foram originalmente um artigo de jornal ou uma carta a um amigo. O mais claro exemplo é a célebre frase atribuída a John F. Kennedy "não pergunteis o que pode o vosso país fazer por vós mas perguntai o que podeis fazer pelo vosso país". Este conceito é explicitado por Gibran num seu artigo (A Nova Fronteira) em que incita o seu povo a lutar pelos seus direitos. O Profeta, que está na lista dos livros mais vendidos em todo o mundo há mais de 50 anos, é a mais conhecida obra de Gibran; no entanto As Asas Quebradas, um seu romance em árabe, está ainda há mais tempo na lista dos best-sellers internacionais.
 
 
 
A Nova Fronteira

por Khalil Gibran

 Há duas ideias que constituem um desafio no Médio Oriente presentemente* : antigas e novas.
 As ideias antigas desaparecerão porque estão fracas e gastas.
 Há no Médio Oriente um despertar que desafia o torpor. Este despertar dominará porque o sol é o seu líder e o amanhecer o seu exército.
 Nos campos do Médio Oriente, que têm sido um imenso cemitério, ergue-se a mocidade da Primavera que pede aos ocupantes dos sepulcros que se levantem e marchem em direcção às novas fronteiras.
 Quando a Primavera entoar o seu hino os mortos do Inverno erguer-se-ão, largarão as mortalhas e avançarão.
 Há no horizonte do Médio Oriente um novo despertar; aumenta e expande-se; estende-se e submerge todas as almas sensíveis, inteligentes; penetra e ganha a simpatia de corações nobres.
 Presentemente, o Médio Oriente tem dois senhores. Um decide, ordena, é obedecido; mas está à beira da morte.
 Mas o outro está silencioso na sua concordância com a lei e a ordem, esperando calmamente a justiça; é um gigante poderoso que conhece a sua própria força, confiante na sua existência e crente no seu destino.
 Presentemente, no Médio Oriente, há dois homens: um do passado e outro do futuro. Qual deles sois vós? Aproximai-vos; deixai que olhe para vós e deixai que me certifique, pelo vosso aspecto e pela vossa conduta, se sois um daqueles que se aproxima da luz e entra na escuridão.
 Vinde e dizei-me quem e o que sois.
 Sois um político, que pergunta o que o vosso país pode fazer por vós ou um zeloso, que pergunta o que podeis fazer pelo vosso país?
 Se sois o primeiro, então sois um parasita; se sois o segundo, então sois um oásis num deserto.
 Sois um mercador que se serve da necessidade da sociedade para as necessidades da vida, para o monopólio e o lucro exorbitante? Ou um homem sincero, trabalhador e diligente que facilita e partilha com o tecelão e o agricultor? Cobrais um preço razoável como intermediário entre a provisão e a procura?
 Se sois o primeiro, então sois um criminoso quer vivais num palácio ou numa prisão. Se sois o segundo, então sois um homem caridoso quer sejais agradecido ou denunciado pelo povo.
 Sois um chefe religioso, tecendo um manto para o corpo da ignorância do povo, talhando uma coroa da simplicidade dos seus corações, fingindo odiar o demónio apenas para viverdes do seu rendimento?
 Ou sois um homem devoto e piedoso que vê na piedade do indivíduo o alicerce para uma nação progressista, e que consegue ver através de uma busca nas profundezas da sua própria alma uma escada para a alma eterna que dirige o mundo?
 Se sois o primeiro, então sois um herege, um descrente de Deus mesmo que jejueis de dia e oreis de noite.
 Se sois o segundo, então sois uma violeta no jardim da verdade mesmo que a fragrância se perca nas narinas da Humanidade ou o aroma se erga e penetre no ar rarefeito onde a fragrância das flores é preservada.
 Sois um jornalista que vende a ideia e o princípio no mercado de escravos, que vive da miséria do povo como um busardo que pousa apenas numa carcaça putrefacta?
 Ou sois um professor no estrado da cidade ganhando experiência da vida e apresentando-a às pessoas como sermões que aprendestes?
 Se sois o primeiro, então sois uma chaga e uma úlcera. Se sois o segundo, então sois um bálsamo e um remédio.
 Sois um governante que se rebaixa perante aqueles que o nomearam e rebaixa aqueles que deve governar, que nunca levanta uma mão a não ser que seja para meter em bolsos e que não dá um passo a não ser que seja por avidez?
 Ou sois o servo fiel que serve apenas o bem-estar do povo?
 Se sois o primeiro, então sois como um joio na eira das nações; e se sois o segundo, então sois uma bênção para os celeiros.
 Sois um marido que permite a si mesmo aquilo que proíbe à mulher, vivendo à vontade com a chave da prisão nas suas botas, saciando-se com a comida favorita, enquanto ela se senta, sozinha, em frente de um prato vazio.
 Ou sois um companheiro, que não toma nenhuma providência a não ser de mãos dadas, que não faz nada a não ser que ela dê os seus pensamentos e opiniões, e partilha com ela a felicidade e o sucesso?
 Se sois o primeiro, então sois um sobrevivente de uma tribo que, embora se vista com peles de animais, desapareceu muito antes de abandonar as cavernas; e se sois o segundo, então sois o líder numa nação que se move na aurora em direcção à luz da justiça e da sabedoria.
 Sois um escritor minucioso cheio de admiração de si mesmo, mantendo a cabeça no vale de um passado árido, onde os séculos se despojaram do resto das vestes e ideias inúteis? 
 Ou sois um pensador lúcido que examina o que é bom e útil para a sociedade e passa a vida a construir o que é útil e a destruir o que é nocivo?
 Se sois o primeiro, então sois fraco e estúpido e se sois o segundo, então sois pão para os famintos e água para os sequiosos.
 Sois um poeta, que toca tamborim nas portas dos emires, ou que atira as flores durante as bodas e caminha em préstitos com uma esponja cheia de água quente na boca, uma esponja que será comprimida pela língua e pelos lábios assim que chegar ao cemitério?
 Ou tendes um dom que Deus colocou nas vossas mãos para tocarem melodias celestiais que arrastam os nossos corações para a beleza na vida?
 Se sois o primeiro, então sois um impostor que suscita nos nossos corações o que é contrário àquilo que tendes em mente.
 Se sois o segundo, então sois amor nos nossos corações e uma visão nos nossos espíritos.
 No Médio Oriente há duas procissões: Uma procissão que é formada por pessoas idosas que caminham de costas arqueadas, apoiadas por bengalas dobradas; estão ofegantes embora desçam pela encosta abaixo.
 A outra é a procissão dos jovens, que correm como se tivessem asas nos pés, e jubilosos como se tivessem cordas musicais nas gargantas, transpondo obstáculos como se houvesse ímanes a puxá-los pela encosta acima e magia a deleitar os seus corações.
 Quem sois vós e em que procissão seguis?
 Perguntai a vós mesmos e meditai na quietude da noite; tentai saber se sois um escravo do passado ou um homem livre para o amanhã.
 Digo-vos que os filhos do passado caminham num funeral da era que criaram para eles próprios. Puxam uma corda podre que pode rebentar em breve e fazê-los cair num abismo esquecido. Digo que vivem em casas com alicerces fracos; quando a tempestade soprar - e está prestas a soprar - as casas cairão sobre as suas cabeças e tornar-se-ão as suas sepulturas. Digo que todos os pensamentos, frases, discussões, composições, livros e trabalho não são mais do que correntes que os arrastam, porque são demasiado fracos para puxar o peso.
 Mas os filhos de amanhã são chamados pela vida, e seguem-na com passos firmes e cabeças erguidas, eles são a aurora de novas fronteiras, nenhum fumo toldará os seus olhos e nenhum tinido de correntes abafará as suas vozes. São poucos, mas a diferença é como a de um grão de trigo e uma meda de feno. Ninguém os conhece, mas ele conhecem-se uns aos outros. São como os cumes, que podem ver-se e ouvir-se  não como cavernas que não podem ouvir nem ver. Eles são a semente deitada à terra pela mão de Deus, rasgando a vagem e agitando as folhas novas na face do sol. Transformar-se-á numa árvore imponente, com a raiz no coração da terra e os ramos erguidos para o céu.
 
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* Este "presentemente" reporta-se aos finais do séc. XIX e princípios do XX e
Gibran não viveu o tempo suficiente para assistir à concretização do seu sonho, dum Líbano independente
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Disse  Khalil Gibran:  As vossas almas estão famintas e o pão do saber é mais abundante do que as pedras dos vales, mas vós não comeis !

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Outro texto de Khalil Gibran - Que pensar 
Outro texto de Khalil Gibran - Os olhos
Outro texto de Khalil Gibran - O amor
Outro texto de Khalil Gibran - O casamento
Outro texto de Khalil Gibran - As crianças
Outro texto de Khalil Gibran - O dom

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